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segunda-feira, 20 de julho de 2015

"Ouro líquido"


Ouro líquido
De um dos países mais pobres do planeta, berço da organização terrorista Al Qaeda, o Iêmen, vem uma riqueza preciosa: o mel de Wadi Doan
foto: Caio Vilela
O apicultor Tarik e suas colmeias em Al Khurayba


A região pela qual se estende o Rub Al Khali (que em árabe quer dizer “quarteirão vazio”), um dos maiores desertos de areia do mundo, é inóspita e agressivamente árida. Ocupa boa parte do sudeste da Península Árabe, avançando pela fronteira de um pequeno país situado já à beira do oceano Índico, num remoto e esquecido ponto do planeta: o Iêmen — mais especificamente na região de Hadramout. É lá que, entre paredões verticais de arenito que formam vales férteis insinuantes, se produz uma verdadeira joia da natureza, única em sua forma e qualidade: o famoso mel de Doan. A região desértica e muito pobre de Hadramout é cortada por alguns poucos rios sazonais em cujas margens florescem, uma ver por ano e por apenas um mês, três variedades de acácias, principal manjar de uma certa abelha endêmica muito especial. É um tipo escuro e bem adaptado ao trabalho sob calor e condições extremas do deserto. Em Wadi Doan (rio Doan em árabe), mais especificamente nas cidades Seef e Al Khurayba, concentram-se apicultores com tradições milenares que dão conta da pequena produção de mel local, chamado de Doani Assal (mel de Doan).

Estima-se que a região de Hadramout produza 35 toneladas de mel por ano, cuja melhor variedade é revendida diversas vezes a preços multiplicados até chegar aos países árabes ricos da região, como Dubai, Arábia Saudita e o Kuwait, onde é tido desde os tempos mais remotos como uma medicina milagrosa. Ironicamente, Wadi Doan, uma das regiões mais pobres do mundo árabe, é a produtora de uma de suas maiores riquezas culturais e mais valorizadas também. Nas festas dos xeques sauditas dos Emirados Árabes, por exemplo, são servidos doces refinados e elaborados a partir do mel do Iêmen. O preço de 1 litro de primeira qualidade pode chegar a US$ 150 no mercado árabe – valor muito diferente do que pede um apicultor de Al Khurayba: US$ 16 pelo mesmo litro. Nas lojas especializadas das grandes cidades, o valor já sobe para US$ 30, chegando a US$ 60 na capital do país, Sanaa. Os valores são altíssimos se comparados ao padrão de vida e renda mensal dos habitantes da região de Hadramout.

Os apicultores vivem na pobreza e na precariedade, como todo mundo na região. Mesmo assim, devotam ao produto grande admiração: “O mel, para nós, é um alimento nobre e uma medicina sagrada. Enquanto no Ocidente o mel é apenas um docinho que custa barato, aqui é como se fosse ouro líquido”, diz Tarik Abdullah, 52 anos, dono de um dos apiários primitivos de Al Khurayba, nos quais se espalham colmeias feitas com vasos de barro.Os apicultores guardam os enxames de abelhas em vasos de cerâmica feitos à mão e mantidos na horizontal. O mel é extraído apenas com a força da gravidade: os vasos têm buracos no fundo e basta colocá-los sobre barris vazios para o mel escorrer naturalmente, manobra que favorece a preservação da integridade das larvas em desenvolvimento e trabalho das abelhas operárias.

Assim como seus pais e avós, Tarik e sua família vivem do mel. Sua rotina em Al Khurayba começa muito cedo, às cinco da manhã, quando reza em família e orienta os filhos sobre as atividades do dia: manutenção das colmeias, limpeza do material, extração, verificação da produção.

É ele, no entanto, quem cuida dos negócios e vai para Al Mukalla a cada duas semanas, num trajeto de quatro horas de ônibus, vender sua produção de aproximadamente 50 litros – uma das maiores do local.Na cidade, faz uma refeição típica (pão com salta, um cozido ralo de vegetais) e reza na mesquita. Como todos os muçulmanos, reza cinco vezes ao dia, onde quer que esteja, até mesmo no campo, se tiver onde lavar as mãos e souber a direção de Meca, procedimentos essenciais ao ritual. No fim da tarde, volta para trabalhar nas colmeias com os quatro filhos, também apicultores. Enquanto isso a esposa, sempre coberta com o véu islâmico, faz trabalhos domésticos, busca água (pouca gente tem água corrente em Al Khurayba), vai ao mercado, limpa a casa e cuida dos animais com suas três filhas. É uma vida difícil e modesta. Todos os produtores trabalham muito e produzem pouquíssimo — ninguém ganha mais do que US$ 150 mensais. Os melhores momentos ocorrem durante os três meses em que o mel especial é produzido. No resto do ano, Tarik colhe o mel de outras flores silvestres, que vale menos, e cria cabras, faz tijolos e outros trabalhos manuais. “Não é muito rentável, mas é digno e é o que sei fazer. Filho meu aprende desde pequeno e assim sairá na frente quando chegar sua vez de vender no mercado”, diz ele.

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Um comentário:

  1. Muito boa a matéria que só faz incentivar a nós brasileiros para a criação de abelhas.

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